Vor Frelsers Kirke
Foto: mjd
Estávamos
no verão de 2001, o "11 de Setembro" tinha ocorrido na
véspera e ainda permaneciam visíveis os restos da vigília em
Rådhuspladsen, enquanto que a incredulidade e o espanto
continuavam bem patentes nos rostos dos habitantes islâmicos de
Norrebro.
No
que nos dizia respeito, para além do choque pela tragédia ocorrida,
era também muito o desconforto e o desencanto que sentíamos, após
termos passeado por Christianshavn (Cristiania), face ao cenário
deplorável que nos oferecia um conjunto de edifícios decrépitos e
a ameaçar ruína, enquadrados, aqui e ali, por alguns espaços verdes
extremamente degradados.
Urgia
pois sair dali, já que tudo aquilo tinha provocado em nós, o efeito
de uma punhada no estômago e nem mesmo o patético e cada vez mais ininteligível letreiro, afixado à saída, "You
are now entering the EU", constituía estímulo para
recuperar o tempo das velhas quimeras, que tanto
interesse haviam despertado e entusiasmado a nossa juventude.
Mal
digerida que foi a decepção, bastou atravessar a Princessgade e,
em meia-dúzia de passos, alcançar Vor Frelsers Kirke.
O
objectivo principal que nos movia, era ascender ao topo da igreja e de lá desfrutar da panorâmica soberba sobre a bela metrópole que
é Copenhaga e que se projecta numa vasta superfície plana, como se
de uma mão espalmada se tratasse e cujas linhas se constituem em
inúmeros parques verdes, lagos e canais.
Havia
para isso que trepar por uma íngreme escada de madeira, com degraus
sem espelho, separada, entre patamares, por sucessivos lances, nalguns casos, com um
corrimão tão baixo que mais se assemelhava a um “corripé” e que ia desembocar no chão da plataforma em forma de hexágono, onde,
através de escada exterior em caracol, com 150 degraus, é possível iniciar a
escalada até ao último varandim da cúpula dourada, no qual, a
memória nos remeteria, inevitavelmente, para Júlio Verne e para os preparativos da
sua “Viagem ao Centro da Terra".
Ao
alcançar o patamar e a um palmo dos olhos, deparámos com um par de
ténis, meio cambados e de biqueira arqueada, que mais sugeriam proas
de barcos vikings e que sustentavam um gigante de cerca de dois
metros de envergadura que, delicadamente, se desviou para ceder
passagem.
Avesso
como sou a manobras nas alturas, "deixei cair" Verne e
decidi que, para mim, a escalada terminava ali, preferindo esperar e
percorrer demoradamente, nos dois sentidos, o estreito recinto,
enquanto me ia cruzando sucessivas vezes, com o tal gigante que,
confesso, me causava algum incómodo pelo olhar estranho, misto de
ansiedade e impaciência, com que me fixava a cada passagem.
Até
que, utilizando um esquisito dog english, me interpelou de
supetão:
-You
go down?
Respondi
que ainda não, que aguardava alguém que tinha prosseguido a visita até
à cúpula, mas eu permaneceria ali mais uns instantes, tendo ambos
continuado os nossos percursos; eu, no sentido dos ponteiros do
relógio; ele, a contrariar a lógica do tempo; eu, interessado na
plenitude da vista; ele deixando perceber um olhar inexpressivo.
Finalmente,
chegou o momento de baixar do céu, mas, antes de encetar a descida à
terra, anunciei-a ao meu interlocutor de ocasião.
Num
ápice, puxou de um papel de cores garridas, garatujou algo e
passou-mo para as mãos sem mais formalidades, pedindo-me que o
entregasse ao funcionário da portaria enquanto balbuciava no mesmo
dog english e em tom pouco audível:
-it’s
just an appointment.
Confesso
que fiz várias conjecturas, no entanto assumi sem quaisquer
pruridos o papel de mensageiro e guardei o recado no bolso.
Durante
a descida houve oportunidade para demorar mais alguns instantes na
observação das inúmeras gravuras e documentos, existentes nos
diversos patamares, relacionados com a intervenção arquitectónica
que o edifício sofreu aquando da sua restauração.
Até
que, decorridos cerca de 10 minutos, chegámos ao átrio, onde
procedi à entrega da mensagem ao recepcionista, que logo saiu
alvoroçado para o jardim circundante.
Meio
atónitos e sem entender o que se estava a passar, também nos
encaminhamos para a saída e foi então que deparámos com os ténis
cambados e o cobertor pardo, que envolvia o resto do corpo e que, por
ser curto, os deixara a descoberto.
Absolutamente siderados, ainda
não havíamos esboçado qualquer reacção e já estávamos rodeados
de vários paramédicos, polícias, um médico, um pastor da igreja e
uma senhora muito amável com dois copos com água -só não havia
mirones...
Poucos
minutos bastaram para nos identificarmos, enquanto recusávamos delicadamente tudo
o que insistiam em nos oferecer, desde assistência de psicólogos,
ida ao hospital, comida, etc.
A
única coisa que pedimos foi água, mais água, e que nos indicassem
a paragem do autocarro que nos havia de levar à “Baixa”, que é
como quem diz a Stroget.
Foi
então que ouvi sussurrar timidamente a meu lado:
-
Estás tão pálido...
-
E tu também, pareces mesmo uma dinamarquesa! Retorqui.
Fui
eu, a última pessoa que falou com aquele homem e nunca mais vou
esquecer as suas, breves, palavras.
Por
saber ficaram as razões que o motivaram a escolher, aquela tão
bizarra maneira de fazer a sua "viagem" ao centro da terra.
Disseram-nos
que nunca, em 300 anos, tinha acontecido um suicídio naquele local.
Depois
disto, já lá voltámos várias vezes, mas, pelo sim pelo não,
preferimos olhar para cima, cá de baixo…
Ah!
Antes de terminar, querem saber o que estava escrito no papel?
Apenas
isto: Call (seguia-se um número de telefone). Disse-nos o
recepcionista.
Ainda
hoje me interrogo sobre o que teria feito se tivesse lido a mensagem.
(texto revisto)
la Pipe: Agosto 2005
bth: Dezembro 2008