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01/09/16

O último jogo in loco, a derrota e a multa.


Dinamarca - Portugal
4-2
jogo amigável

Bolas! Uma Década é uma década.

Faz hoje exactamente dez anos que, pela última vez, entrei num estádio de futebol e vi um jogo de in loco. Foi em Brondby nos arredores de Copenhaga e posso dizer que foi uma cilada preparada cientificamente pela 'melhor juventude' que não permitiu qualquer hipótese de escapar.
No relvado eram onze de cada lado mas nas bancadas o desequilibro era gigantesco.
A apoiar a selecção anfitriã, seriam uns largos milhares a transbordar de fervor patriótico. Na nossa claque, apenas umas escassas dezenas diluídas por vários núcleos perdidos naquele mar de gente.
No nosso grupinho o nível académico dos 'tifosi' era muito elevado. Seis entusiastas, entre PhDs e PostDocs, com idades na casa dos vinte e alguns até aos trinta e poucos, enquadrados por um espectador e uma espectadora, mais veteranos, que tinham sido arrastados de surpresa por aqueles jovens mais dados a bioreactores, pipetas e tubos de ensaio do que a experiências com bolas, já que o seu forte era a velocipedia, mas desejosos por se divertirem num cenário, para a maioria, insólito. Além do mais  3 000 klm de distância marcam bastante
Aliás, com a excepção de um biólogo entendido no mister, todos os outros revelaram à saciedade que a ignorância é muito atrevida...
Quando, depois do intervalo, as equipas trocaram de campo e de baliza, houve necessidade de explicar tudo outra vez, não fosse alguém desatar a aplaudir os golos dos danes.
Havia, entre nós, uma única camisola das quinas, cedida por um vizinho de alguém, que foi andando de dorsal em dorsal até ficar na posse definitiva do tal adepto conhecedor e mais barulhento que, por coincidência, a tinha em seu poder quando metemos o segundo golo e se convenceu que se tratava de um amuleto e dava sorte. Viu-se...
Na fila à nossa frente os vickings emborcavam a um ritmo superior ao que a sua selecção usava para pôr pressão sobre a nossa baliza.
Eram alegres, simpáticos e entusiastas, por cada golo ofereciam-nos latas de cerveja, as quais, inevitavelmente, iam molhar as gargantas dos compatriotas mais sedentos e habituados a fermentações ou não fossem todos cientistas.
No final, os danes tinha metido quatro golos e nós apenas dois. Isto no relvado, porque na bancada a desproporção foi muito maior. Uma autêntica abada.
A espectadora veterana ainda hoje está para perceber para que servia a bola e porque é que a pontapeavam impiedosamente e só raramente a acariciavam com as mãos, e eu há muito que desisti de tentar decifrar-lhe o mistério. No body's perfect.
Ninguém saiu cabisbaixo e, não obstante a contrariedade de uma multa por estacionamento indevido, todos aceitámos o desfecho com fair play nórdico.


20/05/15

Combate ao dumping social, o que é isso em Portugal?

COPENHAGA PROÍBE FUNCIONÁRIOS DE VOAREM NA RYANAIR POR “DUMPING" SOCIAL DA TRANSPORTADORA AÉREA




Copenhaga é uma cidade solidária e capital do pais mais feliz do mundo. Há muito que me adoptou e me convoca em permanência. 
É uma relação que não se explica, apenas se sente, e é também por essa razão que sempre que estou de regresso, imagino logo a volúpia de nova visita. 

Apostila: Nunca vooei na Ryanair.

22/12/14

Boas Festas

...................Gløgg de Natal

É uma bebida quente, composta por vinho tinto, vinho do porto e alguns espíritos fortes, como aguardente ou vodka dinamarquesa, temperada com canela, cardamomo, cravo, cascas de laranja, uvas passas e amêndoas.
Experimentem e tenham boas festas.

26/09/14

A abordagem, o muro e o torcicolo.

                                   Oslo fjord

Quando chegámos ao deque superior, já os contingentes italiano e japonês tinham invadido o espaço.
Enquanto uns gesticulavam "ruidosamente" sobre se seria preferível instalarem-se antes na proa do ferry, os outros irradiando a simpatia habitual que os caracteriza, entretinham-se a fotografar-se mutuamente pela enésima vez e distribuíam, divertidos, chapéuzinhos e casacos por tudo o que era cadeira.
Assim sendo, sem problemas de consciência e fazendo jus ao velho atavismo dos cordões do desenrasca, não hesitámos em nos lançar numa abordagem, tipo raide, a umas cadeiras menos expostas, mudar os acessórios para outras e deslizar subtilmente para a primeira fila de mesas, a dois passos da popa. Os simpáticos nipónicos haveriam de resolver o problema, do que era de quem, pacificamente, como é seu apanágio.
Esperavam-nos dezasseis horas de viagem de regresso a casa, o final de tarde estava agradável e, enquanto fosse dia, era ali que estaríamos bem a ler, a conversar e a deleitar-nos com a beleza do Fiord de Oslo.
Mal nos tínhamos instalado, com aquele ar triunfante que, como bons portugueses, costumamos assumir sempre que se trata de celebrar os feitos gloriosos da navegação, quando, surgido sabe-se lá de que portaló, se instalou à nossa frente, bem junto à amurada, um autêntico muro, não da “vergonha”, porque isso já lá vai, nem tão pouco dos “sem vergonha”, como o da Cisjordânia e o de Tijuana.
Era sim, uma cortina de carne e osso que apontava, em média para os 1,90 m e cujo revestimento de ádipe, reflectia à saciedade o culto dos "big mac" na pátria do caviar. Uma boa dúzia de russos, opacos e da pesada, autênticos "armários" com ar de novos-ricos da era Putin, verdadeiros filhos de esturjão com aspecto de intrujão, que não possibilitaram qualquer “glasnost” capaz de nos permitir desfrutar da paisagem, sem ficar com uma espécie de torcícolo de tanto nos esticarmos.
Por uma vez o palpite marinheiro falhou, não ganhámos nada em sair de Oslo de costas, só para termos a ilusão de que ainda estávamos a chegar.

Texto revisto

27/08/14

Sol enganador



                                   King's garden

Enganador o Sol que por aqui paira, furtivo, quando assoma a uma qualquer janela do céu e se recolhe de presto com a leveza da chegada. Não aquece o lugar...
Hoje, porém,  foi diferente, condescendeu e abriu as cortinas feitas nuvens para, demorado e sedutor, convidar a cidade que, disponível e sensual, despojada e sem cuidar de vestes, se esparramou na areia e na relva, até ficar saciadada e, finalmente, se render mal a noite se insinuou.

25/03/14

Rememberings II

                               Max Ernst: Sculpture -  Louisiana Modern Art Museum., 
                               Foto.: Hapsical

Wait until yesterday's here

24/03/14

A última pedalada

                              Foto: Thomas Rousing

Basta um simples olhar e eis a "imagem" imaginada dela, num lugar onde só eu sei, a velha bicicleta que me fez ser personagem de O'Neill: O homem que pedala que ped'alma/com o passado a tiracolo/ao ar vivaz abre as narinas: tem o porvir na pedaleira.
"The beauty of a shadow" daquela que testemunhou e sentiu a última pedalada e a última queda.
Inocente(s): Quem poderia prever que um cabo do travão se envolvia de repente com um raio da roda da frente.
Ficámos ambos muito machucados, mas não guardamos ressentimentos mútuos e trocamos olhares de cumplicidade assumida, sempre que "aqui" venho, porque ela sabe bem que eu nunca mais pedalei...

14/03/14

Lá não é como cá.



                               Politiken. dk - Foto: Finn Frandsen


De acordo com uma pesquisa da World Values Survey, envolvendo aproximadamente 350 mil pessoas em cerca de 100 países e territórios, a Dinamarca foi considerada o país mais feliz do mundo. Já o disse aqui e repito. 
A circunstância de, faz precisamente cinco anos, o Parlamento Dinamarquês ter aprovado uma lei que permite aos casais homossexuais, direitos absolutamente iguais para a adopção de crianças, é causa e efeito dessa realidade, não aconteceu por acaso.
A Dinamarca é assim; um país solidário e acolhedor, uma porta permanentemente aberta para o mundo e os Danes são um povo livre, tolerante e descomplexado.

13/02/14

Desconforto e decepção

Hesitei muito antes de publicar este "short and sharp", tal é o desconforto e a decepção que sinto. O episódio deplorável que teve lugar no zoo de Copenhaga com a girafa Marius, remete-me inevitavelmente para o Hamlet de Shakespeare. Na verdade, algo "esteve podre no reino da Dinamarca".

22/12/13

Boas Festas

..................          .Gløgg de Natal

É uma bebida quente, composta por vinho tinto, vinho do porto e alguns espíritos fortes, como aguardente ou vodka dinamarquesa, temperada com canela, cardamomo, cravo, cascas de laranja, uvas passas e amêndoas.
Experimentem e tenham boas festas.

17/10/13

A cidade da emoção tranquila

                  Copenhaga- Nova Ópera (pala)
                  Foto: hd

Decididamente, a cidade adoptou-me e convoca-me em permanência. É uma relação que não se explica, sente-se.
Sensual, sob um céu vestido de nuvens, gosta de se desnudar, dançar e cantar para mim, num frémito de emoção tranquila.
É por isso que, sempre que estou de partida, imagino já a volúpia do regresso.

16/10/13

A frota


No Museu Nacional de Arte (Statens Museum for Kunst) não é permitida a entrada a carrinhos particulares de bebés.
Em compensação existe uma numerosa frota de "topos de gama" à disposição dos adultos que cultivem o bom hábito de levar as suas crianças a visitar o museu.
Está mesmo a ver-se qual foi o que o neto escolheu! *

* Alguém insinuou que houve influência do avô. 
(Como se eu fosse capaz de uma "coisa" dessas...)

15/10/13

"Pés descalços"


Não pensem que as fotos foram tiradas à porta de uma qualquer mesquita. Nada disso.


Trata-se apenas da entrada para o espaço destinado às crianças existente no Museu Nacional de Arte (Statens Museum for Kuns) em Copenhaga.

13/10/13

Uma festinha a Frida

Arken Museum of Modern Art (Ishøj-Denmark)
Frida Kahlo - A life in Art, 07/09/13-12/01/14 


Cada tic-tac é um segundo da vida que passa, foge e não se repete. E há nela tanta intensidade e tanto interesse que o problema é só saber vivê-la. Que cada um o resolva como puder. Frida Kahlo

O neto quis fazer uma festinha a Frida Kahlo e para conseguir chegar até à sua face, nada melhor do que trepar às cavalitas do pai.

04/10/13

Da química

Quando me perguntam o que fazem as pessoas depois de aposentadas, eu respondo que tenho a sorte de ser licenciado em engenharia química e uma das coisas que mais me agrada fazer é transformar cerveja, vinho e outras bebidas alcoólicas em urina. E estou a sair-me muito bem! Harold Schlumberg 

Já escrevi em tempos no bth que aqui utilizar um mictório, fica mais caro do que  fazer análises à urina, mas nem imaginam a quantidade -e qualidade- de discípulos que o famoso Químico tem por estas paragens, mesmo sabendo que estão sujeitos a pagar duas vezes para fazer a experiência, ou seja, à "entrada" e à "saída". 

02/10/13

Está-se bem aqui.


Tão ou mais importantes do que os lugares que nos pertencem, são os lugares que nos habituámos a amar porque deles faz parte, parte de nós.
Lugares que, de tão conhecidos, até parece terem sido concebidos à nossa medida, quando se renovam com naturalidade, sempre que a eles voltamos.

21/08/13

Um táxi com Pessoa(s) dentro...

O táxi chegou num instante, como é norma acontecer em Copenhaga, o motorista, solicito, disponibilizou-se de imediato para nos ajudar com a bagagem, atitude essa que já não é tão habitual, porque os escandinavos têm muitas qualidades, mas a gentileza não é propriamente um dos seus atributos mais característicos, ou melhor, o seu conceito de amabilidade é muito diferente do nosso.
Após termos iniciado o percurso, apercebi-me que, enquanto conduzia, nos ia observando atentamente pelo retrovisor e logo que nos ouviu falar, rasgou um largo sorriso e de pronto nos interpelou: Portugueses?... Lisboa?... 
Perante a resposta afirmativa, acentuou ainda mais o sorriso, disse-nos que tinha visitado recentemente a nossa cidade e deixou-nos verdadeiramente espantados, quando, em lugar de tecer os habituais elogios ao sol e à cozinha portuguesa, o nosso simpático interlocutor proferiu a seguinte e surpreendente exclamação: Fernando Pessoa, A Great Poet
A partir daí foi sempre a guiar, perdão, a desfiar, falou-nos das seis obras do poeta traduzidas para dinamarquês, de como lamentava não conhecer a nossa língua porque, sublinhou,"Traduttore traditore", sobretudo em poesia, enquanto dava uma ênfase muito especial à enorme admiração que nutria pelo poeta.
Depois prosseguiu com entusiasmo citando a Lisboa antiga e histórica, o Bairro Alto, o Chiado, até que, claro, “chegou” à Brasileira, para, de supetão, se referir a estátua e questionar-nos sobre a sua existência no exacto local onde se encontra, sempre tão cheio de gente, sugerindo mesmo que sendo o poeta um ser solitário não iria provavelmente concordar com o sítio escolhido.
Devo confessar o nosso embaraço, já que nunca tínhamos analisado a situação sob aquela perspectiva. Ainda esboçámos um comentário acerca da simbologia que constituía o local de culto e a forte ligação de Pessoa àquele espaço. Nem assim, o nosso interlocutor ficou convencido. 
Entretanto, o percurso aproximava-se do fim, mas ainda houve tempo para trazer à colação Saramago e sugerir um livro a propósito: "O ano da morte de Ricardo Reis" (Det år Ricardo Reis døde).
Retorquiu-nos que já sabia que o livro estava editado na Dinamarca e que fazia tenção de o ler, assim como uma edição prestes a ser publicada de o "Livro do Desassossego (Rastløsheden bog) de Fernando Pessoa/ Bernardo Soares, que apenas conhecia em inglês. 


Por fim e para nos deixar completamente estupefactos, “ensinou-nos” que o poeta tinha escrito sob setenta e dois nomes diferentes, entre heterónimos e personagens fictícias.
Já sabíamos da existência de muitos “Pessoanos”, verdadeiros conhecedores, oriundos destas paragens, mas este foi o primeiro que conhecemos tão de perto.


Nota de roda-pé: O simpático vicking, confessou-nos com alguma decepção, que se sentiu enganado aquando da chegada a Lisboa, porque um seu colega de profissão lhe cobrou quatro vezes mais para o levar do aeroporto ao hotel, do que o preço que pagou pelo percurso inverso quando terminou a estadia na Capital.
(Sentimos alguma vergonha).


20/08/13

"Perícia"



A relação entre a maioria dos danes e um "tira cápsulas" é idêntica à que existe entre o presidente Cavaco e um qualquer livro de José Saramago, como por exemplo: "Que farei eu com este livro?", i. é, não sabem o que fazer com ele.
Na verdade e não obstante serem uns grandes apreciadores de cerveja, servem-se de qualquer objecto (menos do dito) que tenha saliências com arestas, inclusivé as rodas da bicicleta, para retirar a tampa das garrafas.
No entanto, o seu instrumento favorito é exactamente outra garrafa de cerveja, a qual, com uma perícia incrível, tampa contra tampa, usam para "descapsular", mas apenas, aquela que pretendem beber.
Aconteceu-me que, na falta do indispensável objecto e sem bicicleta à mão, mas como bom português habituado (mal) aos cordões do desenrasca, tentei imitá-los. Debalde, porque só após inúmeras tentativas falhadas e depois de muito barafustar, consegui finalmente abrir as duas garrafas...

22/05/13

Uns ténis em Vor Frelsers Kirke

                 Vor Frelsers Kirke
                 Foto: mjd


Estávamos no verão de 2001, o "11 de Setembro" tinha ocorrido na véspera e ainda permaneciam visíveis os restos da vigília em Rådhuspladsen, enquanto que a incredulidade e o espanto continuavam bem patentes nos rostos dos habitantes islâmicos de Norrebro.
No que nos dizia respeito, para além do choque pela tragédia ocorrida, era também muito o desconforto e o desencanto que sentíamos, após termos passeado por Christianshavn (Cristiania), face ao cenário deplorável que nos oferecia um conjunto de edifícios decrépitos e a ameaçar ruína, enquadrados, aqui e ali, por alguns espaços verdes extremamente degradados.
Urgia pois sair dali, já que tudo aquilo tinha provocado em nós, o efeito de uma punhada no estômago e nem mesmo o patético e cada vez mais ininteligível letreiro, afixado à saída, "You are now entering the EU", constituía estímulo para recuperar o tempo das velhas quimeras, que tanto interesse haviam despertado e entusiasmado a nossa juventude.
Mal digerida que foi a decepção, bastou atravessar a Princessgade e, em meia-dúzia de passos, alcançar Vor Frelsers Kirke.
O objectivo principal que nos movia, era ascender ao topo da igreja e de lá desfrutar da panorâmica soberba sobre a bela metrópole que é Copenhaga e que se projecta numa vasta superfície plana, como se de uma mão espalmada se tratasse e cujas linhas se constituem em inúmeros parques verdes, lagos e canais.
Havia para isso que trepar por uma íngreme escada de madeira, com degraus sem espelho, separada, entre patamares, por sucessivos lances, nalguns casos, com um corrimão tão baixo que mais se assemelhava a um “corripé” e que ia desembocar no chão da plataforma em forma de hexágono, onde, através de escada exterior em caracol, com 150 degraus, é possível iniciar a escalada até ao último varandim da cúpula dourada, no qual, a memória nos remeteria, inevitavelmente, para Júlio Verne e para os preparativos da sua “Viagem ao Centro da Terra".
Ao alcançar o patamar e a um palmo dos olhos, deparámos com um par de ténis, meio cambados e de biqueira arqueada, que mais sugeriam proas de barcos vikings e que sustentavam um gigante de cerca de dois metros de envergadura que, delicadamente, se desviou para ceder passagem.
Avesso como sou a manobras nas alturas, "deixei cair" Verne e decidi que, para mim, a escalada terminava ali, preferindo esperar e percorrer demoradamente, nos dois sentidos, o estreito recinto, enquanto me ia cruzando sucessivas vezes, com o tal gigante que, confesso, me causava algum incómodo pelo olhar estranho, misto de ansiedade e impaciência, com que me fixava a cada passagem.
Até que, utilizando um esquisito dog english, me interpelou de supetão:
-You go down?
Respondi que ainda não, que aguardava alguém que tinha prosseguido a visita até à cúpula, mas eu permaneceria ali mais uns instantes, tendo ambos continuado os nossos percursos; eu, no sentido dos ponteiros do relógio; ele, a contrariar a lógica do tempo; eu, interessado na plenitude da vista; ele deixando perceber um olhar inexpressivo.
Finalmente, chegou o momento de baixar do céu, mas, antes de encetar a descida à terra, anunciei-a ao meu interlocutor de ocasião.
Num ápice, puxou de um papel de cores garridas, garatujou algo e passou-mo para as mãos sem mais formalidades, pedindo-me que o entregasse ao funcionário da portaria enquanto balbuciava no mesmo dog english e em tom pouco audível:
-it’s just an appointment.
Confesso que fiz várias conjecturas, no entanto assumi sem quaisquer pruridos o papel de mensageiro e guardei o recado no bolso.
Durante a descida houve oportunidade para demorar mais alguns instantes na observação das inúmeras gravuras e documentos, existentes nos diversos patamares, relacionados com a intervenção arquitectónica que o edifício sofreu aquando da sua restauração.
Até que, decorridos cerca de 10 minutos, chegámos ao átrio, onde procedi à entrega da mensagem ao recepcionista, que logo saiu alvoroçado para o jardim circundante.
Meio atónitos e sem entender o que se estava a passar, também nos encaminhamos para a saída e foi então que deparámos com os ténis cambados e o cobertor pardo, que envolvia o resto do corpo e que, por ser curto, os deixara a descoberto.
Absolutamente siderados, ainda não havíamos esboçado qualquer reacção e já estávamos rodeados de vários paramédicos, polícias, um médico, um pastor da igreja e uma senhora muito amável com dois copos com água -só não havia mirones...
Poucos minutos bastaram para nos identificarmos, enquanto recusávamos delicadamente tudo o que insistiam em nos oferecer, desde assistência de psicólogos, ida ao hospital, comida, etc.
A única coisa que pedimos foi água, mais água, e que nos indicassem a paragem do autocarro que nos havia de levar à “Baixa”, que é como quem diz a Stroget.
Foi então que ouvi sussurrar timidamente a meu lado:
- Estás tão pálido...
- E tu também, pareces mesmo uma dinamarquesa! Retorqui.

Fui eu, a última pessoa que falou com aquele homem e nunca mais vou esquecer as suas, breves, palavras.
Por saber ficaram as razões que o motivaram a escolher, aquela tão bizarra maneira de fazer a sua "viagem" ao centro da terra.
Disseram-nos que nunca, em 300 anos, tinha acontecido um suicídio naquele local.
Depois disto, já lá voltámos várias vezes, mas, pelo sim pelo não, preferimos olhar para cima, cá de baixo…
Ah! Antes de terminar, querem saber o que estava escrito no papel?
Apenas isto: Call (seguia-se um número de telefone). Disse-nos o recepcionista.
Ainda hoje me interrogo sobre o que teria feito se tivesse lido a mensagem.

(texto revisto)

la Pipe: Agosto 2005
bth: Dezembro 2008

09/05/13

The mists of time

                          Louise Bourgeois: "Eyes"  (Louisiana Modern Art Museum-Denamark)

Wait until yesterday's here...