29/04/13

"Das urnas"

Na Islândia, os políticos que levaram o país à banca rota, voltaram, agora nas urnas, impantes, como se nada tivessem a ver com o que se passou, porque a esquerda foi impotente para aplicar um remendo -imposto- e, principalmente, porque desta vez foi a memória do povo que ficou "rota"...
Em Itália o velho progressista Giorgio Napolitano, teve de dar posse a um governo, cujo número dois  é um tal Angelino Alfano, um "napolitano"  de Sua Emittenza Berlusconni que, postiço e impune, esteja dentro ou fora, continua a gerir o país,  com as urnas sempre em festa, como se fosse  um reality show da sua cadeia de media.
E ainda dizem que a Primavera é a estação das flores.
Será! Mas desculpem o cinismo: Há ocasiões em que quando me cheira a flores, lembro-me logo de outras "urnas"...
E querem saber porquê?
-É que estou cansado de sepultar quimeras, que pouco mais são do que cadáveres adiados, vitimas de embustes perfumados.

27/04/13

Sounds of saturday CLXXVI


Richie Havens: You are so beautiful to me

26/04/13

Po(st)emas XII


Morte e Vida Severina (Introdução)

O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.

Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir 
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

João Cabral de Melo Neto

25/04/13

Sempre!

                        Pimentel
                                in: As portas que Abril abriu

Porque de novo se erguem muros em volta, de novo é necessário clamar a revolta.

22/04/13

O cromo da moda


Desde que apareceu na ribalta, pela mão do seu mentor e homónimo de apelido Relvas, o  "embaixador" Miguel Gonçalves, uma espécie de pantomineiro diplomado, mestre em alquimia, capaz de se empoleirar num palanque de feira e vender duas patranhas pelo preço de uma, ao sempre disponível cidadão-eleitor tuga,  transformou-se no cromo da moda, enquanto se  afirmava como  um aplicado e exímio seguidor dos conselhos inscritos no célebre best seller, “Como enriquecer sem fazer nada”.
Só que em vez de guardar um prudente recato, de modo a deixar no ar apenas a leve suspeita de que se tratava de mais um vendedor de fretes de ocasião à coca de uma qualquer tranquibérnia, o homem não resistiu ao "impulso" e decidiu insistir.
Claro que deixou de ser apenas suspeito e acabou definitivamente com quaisquer dúvidas...

21/04/13

Finalmente...

...foi designada uma mulher para o lugar de Secretária de Estado da Defesa.
É claro que também poderia ter sido um anjo (risos) se acaso os houvesse na maioria, mas o que importa "discutir" é que se pôs fim ao sexismo obsoleto naquele ministério.
(modificado)

20/04/13

Da poesia e da amizade

Amigo e irmão, entendeu o Eufrázio Filipe convidar-me para participar na apresentação do seu último livro Chão de Claridades.
Uma admirável colectânea, que reúne vários dos seus poemas e que constitui um testemunho marcante do talento e da sensibilidade, que fazem do poeta um dos mais inspirados da actualidade. 
Foi a minha primeira experiência num evento desta dimensão e por isso gostaria de de partilhar convosco um simples excerto da minha modesta intervenção, a qual simboliza, acima de tudo, a profunda e fraterna admiração que tenho pelo autor e pela sua poesia.

(...)
"Original é o poeta que se origina a si mesmo”, o poeta que nos conta e nos canta um Chão de Claridades:
Um Chão que nos sugere o apelo telúrico das searas que dançam à flor da terra enlaçadas pelo vento.
Um Chão que tanto se prolonga e se reflecte para além do infinito dos versos, como demora apenas o instante do pestanejar de uma vírgula, iluminada pelo clarão das faúlhas que rasgam a bruma.
Um Chão que ecoa no som dos búzios e no canto das gaivotas e nos devolve o rumor da maresia.
Um Chão de sensualidades, capaz de desnudar e dar vida às pedras e amá-las no leito das marés.

Original é o Eufrázio quando nos descreve, como só ele sabe, que existem mais mares para além daqueles que encontramos nos mapas.
Há o Mar da sua poesia, feita de amores intensos e de liberdade plena, aquele mar de metáforas, sulcado e cindido por arados feitos palavras, que são as quilhas dos navios que ele sabe construir como ninguém, com pássaros nos mastros e cravos cor de papoilas nas amuradas.
Alegorias de ventos rompendo neblinas à descoberta de destinos por inventar.
Umas vezes um Mar-chão e sereno, outras revolto e alteroso. 
Ora distante e profundo, quando nos leva aos horizontes de esperança onde estão os nossos olhos. Ora próximo e disponível, tão próximo que, na maré-cheia, a lâmina suave das ondas, como que vêm acariciar o corpo da musa preferida, onde mergulha o cio quando esta lhe beija a escarpa, para, após um vai e vem de sedução e encantamento, se retirar de mansinho, deixando na fímbria da areia o espaço e o sal das palavras, de poemas como este:

 Admito que estejas sentada
 nas areias da praia 
à espera da onda
onde me espumo para te colher

Se lá não estiveres
no teu lugar estará um sinal
e nada mais será importante
estrela do mar

(...)

Sounds of saturday CLXXV


Ismael Lo: Tajabone (Senegal)

19/04/13

Chão de Claridades *


Um Chão que ecoa no som dos búzios e no canto das gaivotas, capaz de iluminar, desnudar e dar vida às pedras e amá-las no leito das marés.

* Lançamento hoje no Fórum Cultural do Seixal

18/04/13

A "koltura" e o ressabiado

Assistir a uma intervenção de Cavaco numa Feira do Livro é o mesmo do que escutar um calhau a declamar poesia.

Poderá também ter interesse em:      Raça de gafe         O Homem e os outros

Ainda pior

Ainda pior do que a hipertensão é a "hipopensão".

15/04/13

Po(st)emas XI


A Invenção da Resposta

outrora
em riste
o passo mítico espantoso condensava
da santidade
o insurrecto pudor
o gelo do rubor
a pressa cerrada

agora
em triste
vacuidade
o desafio que expande
                          cede
                       degola
o desgarrado nexo do rasgo

Ana Hatherly,
in: "Um Calculador de Improbabilidades

14/04/13

Por la tercera

                                     
                                                        14 de Abril de 1931

                                       
                                            "Covas cerradas heridas abiertas"


"Se hace el camiño al andar"

                                 
                                               "España mañana será republicana"

                                   
                                  Himno de Riego. El himno da República Española

13/04/13

Sounds of Saturday CLXXIV

Maria Farantouri (Grécia):Dromoi Palioi (Mikis Theodorakis-Manos Hatzidakis)

12/04/13

Madurezas

Eu já tinha previsto que o "Alvarinho" poderia cair de maduro, mas agora, com este maduro funâmbulo que lhe misturaram, deve ter ficado "bouchonné" de raiva e creio que vai acabar por se entornar e cair de podre.



Vai uma voltinha?

A imagem é inequívoca. Está-se mesmo a ver que, este ano, os 50 Euros só chegam para dar umas voltinhas - tipo slalom- com o carrinho das compras vazio, nas lojas dos grandes merceeiros, o Sr. Belmiro e o Sr. Alexandre.
Valha-nos que no fim de cada "gincana", os conhecidos filantropos são bem capazes de oferecer ao vencedor, um carrinho com meia-dúzia de produtos brancos, em vésperas de findar o prazo de validade...
É só acelerar!


10/04/13

Rebentam...

Rebentam  com o país como se fosse uma caixa multibanco. De facto, os membros desta governança são gente de delito comum.
"E não se pode julgá-los?..."

08/04/13

Thatcher



"When Margie Thatcher dies, we're gonna have a party"* (Quando Margie Thatcher morrer, nós vamos festejar)
Esta promessa antiga das gentes de Liverpool, vai finalmente ser cumprida e hoje vai cantar-se na cidade. 
Os naturais e habitantes de Merseyside jamais esqueceram a então chefe do governo britânico, que chegou ao ponto de afirmar que não gastaria dinheiro público naquele "terreno pedregoso",    acrescentando que, se fosse necessário, deixaria acabar a grande metrópole. 
Governante controversa, cavou substancialmente o fosso entre ricos e pobres e  planeou pôr fim aquele que era o melhor serviço de saúde do mundo e desmantelar o ensino público gratuito, para além de defender o congelamento dos subsídios atribuídos pela Segurança Social. 
Só não conseguiu totalmente os seus intentos, porque teve de enfrentar uma forte oposição dentro do seu próprio executivo.
Amiga dilecta e admiradora do biltre Pinochet, levou a cabo e venceu, com o suporte encapotado do "cowboy" medíocre, Ronald Reagan, uma guerra contra a Argentina, pela disputa das ilhas Malvinas/Falkland, a qual contribuiu, reconheça-se, para o derrube da sanguinária ditadura que marcava de opróbrio aquele pais.
Conhecida pelo epíteto de dama de ferro esta senhora acabou a sua carreira politica em 1990, cheia de ferrugem...

* Liverpool Football Club supporters

07/04/13

Po(st)emas X


Atacama
Voz insuportável, sal
disseminado, cinza
substituída, ramo negro
em cujo extremo aljôfar aparece a lua
cega, em corredores enlutados de cobre.
Que material, que cisne oco
mergulha na areia a sua nudez agónica
e endurece a sua luz líquida e lenta?

Que raio duro quebra sua esmeralda
entre as pedras indomáveis e
cristaliza o sal perdido?

Terra, terra
sobre o mar, sobre o ar, sobre o galope
da amazona coberta de corais:
celeiro repleto onde o trigo
dorme na trémula raiz do sino:
oh mãe do oceano!, criadora
do cego jaspe e da dourada sílica:
sobre a tua pura pele de pão, longe do bosque,
nada há, a não ser as tuas linhas de segredo,
nada, a não ser a tua fonte de areia,
nada, a não ser as noites e os dias do homem,
mas junto à sede do cardo, ali
onde um papel enterrado e esquecido, uma pedra
marca os fundos berços da espada e da taça,
assinala os pés adormecidos do cálcio.

Pablo Neruda
In: Canto Geral (tradução de Albano Martins)

06/04/13

Sounds of Saturday CLXXIII


Agnes Obel: Philharmonics (Denmark)

(Ver etiqueta Agnes Obel))

05/04/13

Recicle-se



O Tribunal Constitucional adoptou uma posição antipoluição,  considerou o Orçamento como lixo tóxico e decidiu enviá-lo para o "Gasparão".

04/04/13

O "esplendor" no Relvas

Como ministro, já está fora. Como trapaceiro, chantagista, manipulador, falsificador e censor, ainda não está "dentro"...

A água e a Net

Aviso à navegação (nunca como agora a expressão fez tanto sentido). Sempre que venho para estas bandas, é a banda larga que me permite navegar.
Larga é como quem diz; já que a água tem sido tanta que a dita encolheu e ficou de tal maneira estreita que nem deve dar para um "short and sharp".
Para já vamos ver se este post embarca...

03/04/13

Descontentamento

Parafraseando o outro John, o Steinbeck: Esta Primavera está mesmo a ser o Inverno do nosso descontentamento. Digo eu...

02/04/13

Azul (por uma causa)

                                        
                                                      Pablo Picasso: O menino e cão (fase azul)

 (...)"Amanhã hei-de reconhecer-te quando vir na rua uma mulher a escrever nas paredes: " «Olhos de cão azul»". E ela, com um sorriso triste, que já era um sorriso de entrega ao impossível, ao inatingível, disse: "A verdade é que não te lembrarás de nada durante o dia". E voltou a pôr as mãos sobre o castiçal, com a expressão ensombrada por uma névoa amarga: "És o único homem que, ao acordar, não se lembra de nada do que sonhou".
Gabriel Garcia Marquez
in: Olhos de cão azul

Por uma causa, mesmo quando parece que não têm cor, os sonhos podem ser azuis.