Onde já se viu, um mulato keniano de primeira geração, conseguir romper a lógica da pureza racial dos habituais inquilinos da Casa Branca?
Convém pois, não embandeirar em arco, sabendo como se sabe que, por muito menos, dois irmãos de uma família -quase wasp -, um presidente e um senador, procurador da república, de origem irlandesa e tradição católica, pagaram com a vida, por não se enquadrarem adequadamente nos parâmetros tradicionais da governação.
Num país que foi capaz de eleger um individuo como W., para dirigir os seus destinos durante dois mandatos, tudo é possível.
Por outro lado e no que se refere às reacções dos nossos políticos e analistas -passando ao lado dos oportunistas do costume-, se a prudência manda não sobrestimar o fenómeno Barak Obama, a honestidade intelectual impõe que se lhe conceda o benefício da dúvida, principalmente, porque, pela primeira vez, existem pressupostos inéditos, na envolvente da eleição, que não podem ser escamoteados.
No que concerne à política externa, o futuro presidente dos Estados Unidos transporta com ele um capital político muito significativo, resultante das posições que tomou num passado recente, quando se mostrou favorável ao ponto de vista dominante no resto do planeta, relativamente ao protocolo de Quioto e à Guerra do Iraque, que considerou imoral e injusta, isto, numa altura em que 70% dos americanos a apoiava, bem como ao fim da ignomínia de Guantanamo.
Em relação à política interna, a sua intervenção enquanto senador é notável e indiciadora de que a prometida mudança pode vir a ter lugar:
É da sua autoria legislação, tão importante como, entre outras, as leis que regulamentam e estabelecem: O financiamento e os procedimentos para a eliminação de armas nucleares e convencionais; as punições para fraudes eleitorais e intimidação de eleitores, problema crônico nos EUA, especialmente nas regiões pobres e negras; os planos de saúde para veteranos de guerra, incluído o tratamento dos distúrbios pós-traumáticos; os novos padrões para a economia de combustível; a actividade dos lobbys no Congresso, como a que cria uma comissão para fiscalizar a ética, com amplos atributos para investigar e punir subornos ou actividades ilegais dos mesmos; a que regulamenta e melhora as condições para testes genéticos -muito elogiada por especialistas-; a que cria um banco de dados público, na internet, com os gastos do governo federal; a que aumenta a segurança das indústrias químicas.
E ainda, uma adenda intitulada Iraq War De-Escalation Act, que reduz o número de tropas e estabelece prazos para a saída dos americanos do Iraque.
Eis aqui uma pequena parte do currículo do Senador, cuja política, externa e interna, “ninguém, por cá, parecia conhecer”, mas que para mim foi decisiva para tomar posição frontal e inequívoca antes das eleições e é, para já, suficiente para me sentir confortável com este resultado e acreditar que algo de substancial poderá vir a acontecer, se o Congresso, totalmente na mão do partido democrata, não vier a colocar obstáculos, o que obviamente não é linear.
Digo eu, que até sou, por natureza, céptico.