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17/10/14

Po(st)emas LVI

Não posso adiar o amor para outro século 
não posso 
ainda que o grito sufoque na garganta 
ainda que o ódio estale e crepite e arda 
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço 
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar 
ainda que a noite pese séculos sobre as costas 
e a aurora indecisa demore 
não posso adiar para outro século a minha vida 
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

28/10/13

Po(st)emas XXXV

Há um ofegar de terra na garganta

Há um ofegar de terra na garganta,
há um feixe de ervas que perfuma a casa.
O ar é solidez, o caminho é de pedra.
Procuro a água funda e negra de bandeiras.

Encho a cabeça de terra, quero respirar mais alto,
quero ser o pó de pedra, o poço esverdeado,
o tempo é o de um jardim
em que a criança encontra as formigas vermelhas.

Vou até ao fim do muro buscar um nome escuro:
é o da noite próxima, é o meu próprio nome?


Il y a une terre qui halète dans la gorge

Il y a une terre qui halète dans la gorge,
il y a un bouquet qui embaume la maison.
L’air est solide, le chemin pierreux.
Je cherche l’eau profonde et pavoisée de noir.

J’emplis de terre le crâne, je veux respirer plus haut,
je veux être la poussière de la pierre, le puits verdi de mousse ;
le temps est celui d’un jardin
où l’enfant rencontre les fourmis rouges.

Je vais jusqu’à la fin du mur chercher un nom obscur :
est-ce celui de la nuit proche, est-ce le mien ?

António Ramos Rosa
In: O ciclo do cavalo
Tradução para francês de: Michel Chandeigne



23/09/13

Po(st)emas XXXI

De um grande poeta da língua portuguesa, António Ramos Rosa, que hoje partiu em espirais de espuma, um poema que ocupa um lugar especial na Tese de Doutoramento de alguém que me é muito querida.

Abstracto e material como o vento
espadanando em espirais de espuma
rasando os muros decrépitos com veios de ouro
roçando aereamente as vagarosas copas
ou envolvendo-se no tecido translúcido das nuvens
o poema é um sistema de nervos e de músculo
que fluem entre pausas com o veludo do seu sangue
como um peixe flexível e sinuoso e lento
Ele alheia-se do mundo para perspectivá-lo
segundo as suas linhas de surpresa e harmonia
E tal como o vento que sulca o visível e o acende
move a matéria da sensação em sucessivos arcos
e ilumina-a com o seu fogo abstracto em que se encarna o desejo
Por isso o poema é uma tensão constante
entre o que se sente e a sua lingua de vento
que modela a palavra com seu virtuosismo de insecto.
António Ramos Rosa