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22/09/16

O óbvio



Até surpreende de tão óbvio que é.

12/05/16

Quartier libre / Bairro Livre

Quartier libre
J'ai mis mon képi dans la cage
et je suis sorti avec l'oiseau sur la tête
Alors
on ne salue plus
a demandé le commandant
Non
on ne salue plus
a répondu l'oiseau
Ah bon
excusez moi je croyais qu'on saluait
a dit le commandant
Vous êtes tout excusé tout le monde peut se tromper
a dit l'oiseau

Bairro Livre
Pus o boné na gaiola
saí com o pássaro na cabeça
E então
já não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
já não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bem
desculpe julguei que se fazia
disse o comandante
Não há de quê toda a gente pode enganar-se
disse o pássaro.

Poema de Jacques Prévert
Tradução: Jorge de Sena

25/06/13

À boleia do sol

Digo eu que sei do sol, mas, a verdade é que não estava à espera deste sol que, finalmente, dá mostras de não ser um "Sol enganador", mas se for...
Pelo sim pelo não aqui fica uma reposição.

Le temps perdu

Devant la porte de l'usine
le travailleur soudain s'arrête
le beau temps l'a tiré par la veste
et comme il se retourne
et regarde le soleil
tout rouge tout rond
souriant dans son ciel de plomb
il cligne de l'oeil
familièrement
Dis donc camarade Soleil
tu ne trouves pas
que c'est plutôt con
de donner une journée pareille
à un patron?
Jacques Prévert


Sei do sol

Sei do sol nascente
e do ardente
duelo ao sol.
Sei do sol a pino
e do felino
golpe de sol.
Sei do sol latente
e do silente
tanger do sol.
Sei do sol do sul
e do azul
passeio ao sol.
Sei do sol poente
e do cadente
adeus do sol.

Sei tanto do sol,
haja o sol que houver,
sei que não há sol,
como o de Prévert.

Nota: Esta deriva poética (?) é a consequência óbvia do excesso de sol que apanhei ontem à tarde. De vez em quando inspiro-me em Prévert e só espero que 'ele' me perdoe o atrevimento

bth: Fevereiro 2010

03/01/11

Tant de forêts... / Tantas florestas...

Tant de forêts...

Tant de forêts arrachées à la terre
Et massacrées
Achevées
Rotativées
Tant de forêts sacrifiées pour la pâte
à papier
des milliards de journaux attirant annuellement l´attention
des lecteurs sur les dangers du déboisement des bois et
des forêts.


Tantas florestas...
Tantas florestas arrancadas da terra
e massacradas
arrasadas
rotativadas
Tantas florestas sacrificadas para virar pasta
de papel
milhares de jornais chamando anualmente a atenção dos
leitores para os perigos do desmatamento dos bosques e
das florestas.
Jacques Prévert (tradução de Silviano Santiago)

20/10/10

Variações 'laranja' sobre o Orçamento, com breve passagem pelo "cavalo imaginário de Prévert".

Parece que o Coelho rompeu com o Angelo, i. é, a criatura tramou o criador. Lá diz o povão que quem se mete com "putos" acaba com as fraldas na mão.
Lembrar-me eu da "Fantasia" que, em tempos, escrevinhei aqui, quando o cavalo imaginário de Prévert e a mula da Cooperativa, ainda não tinham jogado de garupa na classe política e decidido tirar férias vitalícias nas dunas de Porto Santo, para viver o seu 'romance de cavalaria'.

(...) O Angelo, exibindo o tradicional ar paternalista, indagava do Passos: -Já tinhas sido punido antes? E este respondeu: -Não, só depois!... e virando-se para o seu mentor, perguntou com visível ansiedade: -Que tal me portei?
-Muito bem! Retorquiu o Ângelo, com a ênfase que todos lhe conhecem, enquanto calcava o Narguilé das "suas" arábias, com uma tacha de cabeça larga (é inesgotável o seu stock de pregos). -
A tua performance foi fantástica, quase parecias uma lebre.Este, agradado com a cenoura, atreveu-se a perguntar:
-Atão e agora o que é que eu faço?
( E o Patinha ansioso sem ter resposta: -Chamaram-me?)-Por enquanto nada, o Pedro vai andar por aí, só tens que esperar que a velha dama caia, porque eu vou dar-te uma nova sota na altura própria.
(...)

Quem diria que, passados estes anos em que o tal Pedro andou -pouco- e a velha dama caíu -muito-, o discípulo do Angelo se havia de baldar à sota e jogar o ás, enquanto mandava o mestre pregar para o deserto (das Arábias) e decidia espalhar a confusão na Quinta de S. Bento, a partir da lorga da Lapa.
Ingrato!
Apostila: Desconheço se o Patinha já pagou as multas, mas isso faz parte do resto da ´"Fantasia" e agora não vem ao caso...

02/02/10

Prévert e o camarada sol (e o que adiante se verá)

Le temps perdu

Devant la porte de l'usine
le travailleur soudain s'arrête
le beau temps l'a tiré par la veste
et comme il se retourne
et regarde le soleil
tout rouge tout rond
souriant dans son ciel de plomb
il cligne de l'oeil
familièrement
Dis donc camarade Soleil
tu ne trouves pas
que c'est plutôt con
de donner une journée pareille
à un patron?
Jacques Prévert



Sei do sol

Sei do sol nascente
e do ardente
duelo ao sol.
Sei do sol a pino
e do felino
golpe de sol.
Sei do sol latente
e do silente
tanger do sol.
Sei do sol do sul
e do azul
passeio ao sol.
Sei do sol poente
e do cadente
adeus do sol.

Sei tanto do sol,
haja o sol que houver,
sei que não há sol,
como o de Prévert.

Nota: Esta deriva poética (?) é a consequência óbvia do excesso de sol que apanhei ontem à tarde. De vez em quando inspiro-me em Prévert e só espero que 'ele' me perdoe o atrevimento.

01/06/08

Nova fantasia para o cavalo imaginário de Prévert e a mula da cooperativa, o azar do Patinha e o flan.



(Ler devagar)

Sobe o pano:

Longe do último Tango e incapaz de conter o azedume, quase a roçar o melhor estilo pimba, Menezes, decidiu antecipar a peixeirada da lota de Matosinhos e pumba! Espumou e resmoneou de raiva:
-Sou um homem de carácter! Um democrata! Muito diferente daquela canalha protagonizada pelo barbas da quadratura.
Este, também conhecido por Pacheco, estonteado como estava após ter exercitado um pino que lhe permitiu recuperar a imagem correcta da bandeira, recusou ripostar, balbuciando atabalhoadamente: -Não sei responder nessa linguagem. -É para admirar, vindo de quem sabe de tudo-.

Já o Ribau, protestou: Sou um preso político! Imaginou-se em Peniche e Caxias e, parece recear que, se não o tirarem rapidamente do cargo, ainda pode acabar no Tarrafal.

Entretanto, cá por baixo, os elitistas, sulistas e outros a acabar em “istas” como arrivistas e populistas, entretinham-se a fazer o balanço da jornada:

O Angelo, exibindo o tradicional ar paternalista, indagava do Passos: -Já tinhas sido punido antes? E este respondeu: -Não, só depois!... e virando-se para o seu mentor, perguntou com visível ansiedade: -Que tal me portei?
-Muito bem!
Retorquiu o Ângelo, com a ênfase que todos lhe conhecem, enquanto calcava o Narguilé das "suas" arábias, com uma tacha de cabeça larga -é inesgotável o seu stock de pregos. -A tua performance foi fantástica, quase parecias uma lebre. Este, agradado com a cenoura, atreveu-se a perguntar:
-Atão e agora o que é que eu faço?
(E o Patinha ansioso, sem ter resposta: -Chamaram-me?...)-Por enquanto nada, o Pedro vai andar por aí, só tens que esperar que a velha dama caia, porque eu vou dar-te uma nova sota na altura própria.

E o Santana, apesar de cabisbaixo e meditabundo, ia tranquilizando as hostes, na pessoa do fidelíssimo escudeiro de estimação Pinto Pança, dizendo:
-Não te assustes que ainda não é desta que vais ter de trabalhar. Ao que aquele, depois de um profundo suspiro de alívio, já que, como costuma dizer, na única vez que trabalhou, perdeu um braço e, só aqui para nós, ainda tem os dois, retorquiu sorridente.
-O que vamos fazer atão?(De novo o Patinha, em vão: -É comigo?...)
E o Santana, exibindo aquele ar factício que lhe faz moldura, informou:
-Ainda estou a pensar. Acabei de falar com o médico e ele disse-me que eu não ia ter vida fácil, mas respondi-lhe logo que isso era difícil...
Foi então que outro dos fiéis, o Raul neotripeiro e ex-alentejano, sugeriu:
-Porque não aproveitas os dotes de melómano e te dedicas à música, durante os tempos mais próximos, para ganhares novo alento?
E o Santana, após uns instantes de reflexão, rematou:
-Boa ideia! Vou começar a tocar violino. Diz aí ao Bota para organizar uma tournée no Algarve, agora que o Verão está a chegar, que eu deixo-o actuar na primeira parte dos concertos e fazer jus ao nome de deputado-cantor e ganhar umas lecas para comprar um postiço em condições.
-Mas tu és capaz de tocar violino?
-Não sei, nunca experimentei! Mas vou à feira do Parque comprar a obra completa do Frederico e depois, com a facilidade que tenho para improvisar, alugo um Stradivarius e arranco para a estrada.
-Espera aí! Quem é esse Frederico? Tem uma barraquinha na feira?
-Santa ignorância! Não digas baboseiras, o Frederico é o Chopin e escreveu um livro de pautas.
-Um livro!? Mas tu já tens um.
-Pois tenho, oferecido pelo meu grande amigo brasileiro Machado de Assis, a quem enviei um cartão de agradecimento. Mas dois livros numa estante nunca são demais.
-Atão e nós? 
(Diz oPatinha, cada vez mais desanimado: Vocês o quê?)
-Vão os dois comigo e acompanham-me, um à pandeireta e outro aos ferrinhos.
-Mas isso é cansativo?
-Não custa muito, além do mais é só enquanto durar a silly season.
-E depois?
-Depois, devolvo o instrumento, mas fico com a vareta
(leia-se arco) que é o meu forte, e vão ver o tratamento que cá o menino vai dar aos cavaquinhos.


Mais longe, na Vigia, o Sr. Jardim, preocupado com o último caldinho do Joe, dá sopa na nova “chefe” e abandona a copa dizendo para o seu fiel jardineiro, Neanderthal Ramos: -Guarda a ferramenta na arrecadação da gruta, porque ainda não é desta que vais desentupir os autoclismos do palacete da Lapa e arranjar espaço para o que se seguir, nunca se sabe se ainda me vai tocar a mim.

No meio de toda a bagunça, ninguém deu por falta do Mendes que justificou a ausência alegando: -Os acontecimentos não estão à minha altura.
À margem, de certa maneira, da teia conspirativa, a recém vitoriosa e babada Vóvó Manela, telefonava excitada para Belém:
-Atão, está mais tranquilo!?(Outra vez Patinha, debalde: -Quem, eu?)
-Sim senhora, (desta vez o género está bem aplicado) Parabéns! E já agora também pelo nascimento do seu neto.
-Ah obrigada! O que me vale é que o meu netinho está no estrangeiro, senão, não sei como é que poderia tomar conta dele durante o dia, com a falta de creches que por aí vai, por culpa do Sócrates.
-Calma aí! –Deixe lá o Sócrates sossegado, a cozer em banho Maria, porque isto ainda não está em ponto de rebuçado para o tirar da forma..
(Maria, em voz off, vinda da cozinha: Espera só mais um bocadinho que o flan está quase.)
-Quer dizer que eu não vou combater o fogo?
-Claro que não. Deixemos isso para o Rui Rio, que há-de vir por aí abaixo de mangueira e machado em punho para, com a ajuda do companheiro voluntário da Marmeleira, atacar tudo o que estiver a arder, se ainda restar alguma mobília.
-Atão está bem.
(Responde o Patinha: Bem obrigado!)
Finalmente houve alguém lhe respondeu, crê-se que o Liberato, baixinho, como só podia: Qual bem obrigado qual quê!? Está mas é calado! Vieste parar aqui porque o GPS se avariou, mas não te safas de pagar as multas por excesso de velocidade.


Alheios a toda esta rábula, o Cavalo de Prévert e a Mula da cooperativa decidiram partir de férias e alugaram uma cavalariça, em regime de forragem completa, nas dunas de Porto Santo, prometendo ao infeliz do Patinha que lhe enviariam um postal ilustrado.
Cai o pano, com estrondo, em cima do contra-regra, que é aquele senhor de passo apressado, que anda sempre de um lado para o outro, vai com todos e está em todas, mesmo quando não é preciso, que era o caso. Foi mesmo azar.

27/04/08

Fantasia para o cavalo imaginário de Prévert, a mula da Cooperativa e o último tango na Buenos Aires


"Je suis vif, c’est le principal. Bon appétit mon Général."
Disse do alto do monte o cavalo imaginário do poema de Jacques Prévert, depois de fugir da cavalariça regimental para não ser comido.

Ao sentir-se apeado, o Senhor da Ilha, apesar de não ter frequentado a Academia de São Lourenço Point, decidiu, num ímpeto de arrojo, iniciar uma carreira castrense de cima para baixo, auto promoveu-se a General no seu labirinto esburacado e, saltando de pronto para a garupa da mula da Cooperativa que, espantada, deu dois coices no telhado do Palácio da Vigia, partiu à desfilada, por entre bananeiras e túneis, em busca do fio condutor que o há-de conduzir, qual cavaleiro inexistente, à conquista da mãe de todas as batalhas em que os chefes são mais do que os índios, antes que um qualquer barão trepador se apodere do faqueiro do professor Marcelo e, depois de deixar um visconde cortado ao meio, aproveite a confusão para escalpar o Mendes Bota, enquanto se ouvem os passos do Coelho numa rapidinha, fuga, pelos atalhos de Calvino e se ouve o apelo da lebre Patinha “atão” ninguém ouve o que eu digo!?
Entrementes, o inefável Angelo dispara em todas as direcções os pregos que guarda desde o Prec e o reformado, quase indigente, Miga Amagal saliva em seco contra a laranja amarga de Belém.
Só e aflito, o menino guerreiro escapa-se até à casa de banho em busca de alívio, na companhia da SIC.
Indiferente a tudo e ferido na honra, mas acompanhado em falsete pela solidária Zita, a funâmbula mais famosa da nossa praça, lato senso, o Menezes vai trauteando lacrimejante o Adiós muchachos compañeros de mi vida/ barra querida de aquellos tiempos/ Me toca a mi hoy emprender la retirada… ao mesmo tempo que ensaia uns passos do último tango na Buenos Aires.
Imagem: Web