Mostrar mensagens com a etiqueta Divagações. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Divagações. Mostrar todas as mensagens

31/01/17

Pause


This is for a good cause. We'll be back as soon as possible,

25/01/16

Encontros "pouco católicos"

Durante o fim de semana, estava eu na esplanada habitual, quando fui interpelado por uma senhora ainda jovem, estilo Assunção Cristas, que pretendia oferecer-me uma pequena brochura, cuja capa só vi de relance, mas que não me deixou qualquer dúvida quanto ao respectivo conteúdo.
Delicadamente recusei, ainda que tivesse de suportar uma dissertação curta e benigna da criatura que, sendo simpática e afável, era monocórdica e entediante de repetitiva.
Desde que, faz tempo, me cruzei com dois criacionistas militantes, pendurados em crachás, que não tinha encontros desde grau.
Aliás, aqui na zona, estes mensageiros parecem abelhas e provêm de diversas colmeias.
A minha interlocutora de ocasião, insistia em falar-me de Adão e Eva e eu replicava que o tema não me seduzia e, com a elegância que se impunha, enfatizei uma atávica ignorância “bíblica”, ainda que estivesse disposto a especular um pouco sobre quem “andou” com quem, naquele suposto partouze à trois entre o casal e a cobra. Adiantando desde logo, que tanto se me dava que que a cobra fosse fêmea ou macho, porque nada tenho que criticar às preferências alheias.
Cada um(a) enrola-se com quem quer e o(a) deixam (não sei se isto vem no livro...).
A minha parceira (salvo seja) de ocasião, era aparentemente, pouco dada a reflexões eróticas e ladeou habilmente esta passagem retirando-se de mansinho e eu fiquei na mesma acerca do que ela pensava sobre a matéria.
Também não identifiquei a a seita da qual era prosélita.

17/12/15

O check up e o boné.

Chegou ao consultório com alguma antecedência. Fazia questão de nunca fazer esperar um médico.
Já na sala de espera, mal teve tempo de olhar de relance, para aquele jornal das salas de espera, mas pareceu-lhe que a capa estava mais anémica do que da última vez, tanto que nem sequer conseguiu perceber quem matou quem...
A assistente, solícita, logo o chamou. 
Como sempre acontecia o médico veio recebê-lo à porta do gabinete, com um caloroso cumprimento. 

--Então como se tem sentido? Mais optimista hein? Foi desta, que a cambada saiu de cena.
--É verdade doutor, mas é melhor ficar na expectativa para ver como corre.
--Tem razão, não vai ser fácil. Trás consigo todos exames que lhe prescrevi na última consulta?
--Sim, Um ano passa depressa. 
--Vamos então ver as análises... Hemograma, plaquetas, velocidade de sedimentação...Glicemia ...Colesterol, Triglicéridos..., todas normais. Ecografia abdominal, Torax, ECG. tudo bem. Parabéns, está como novo! Vou só passar-lhe novos exames para daqui a um ano. Continue sem abusar das gorduras e, claro, pode beber os seus irish whiskeys, mas com moderação. E já sabe, se tiver alguma queixa telefone-me. 
--Obrigado. Mas, acho que vou mesmo morrer de saúde.
--Assim parece. Sempre bem humorado. Até à próxima, gostei de o ver. 
--Adeus doutor, até para o ano. Espero bem...

Pagou a consulta à assistente, guardou o recibo e saiu para a rua. 
Caía uma chuva miudinha e o piso estava que parecia manteiga. Apertou a abotoadura, levantou a gola, cobriu a cabeça e não hesitou em dirigir-se à passagem de peões e atravessar rua em direcção ao carro que tinha estacionado do lado oposto.
Já próximo do passeio fronteiro, escorregou, caiu redondamente, bateu com a cabeça no lancil e ficou prostrado durante alguns instantes.
Quando o INEM chegou, já estava de pé. Só não se finou porque levava o boné...

30/11/15

Nas asas do susto

                    DMI aviso de tempestade com rajadas de força de furacão.
                    DMI aviso de níveis de água elevados. 
                    A tempestade Gorm atinge a Dinamarca esta noite. 

Tinha justamente acabado de toscanejar durante uns largos minutos, quando soou o anúncio de que iríamos iniciar a descida para Copenhaga.
E foi a partir daí que se seguiu o voo do desassossego. Quarenta e cinco minutos de grande tensão e muita ansiedade, com origem na enorme turbulência que de súbito se fez sentir, com quedas abruptas e sucessivas em poços de ar, que mais pareciam crateras, a que se seguiam subidas vertiginosas, acentuadas por inclinações laterais, na ordem dos 45 graus. 
De início ainda esbocei, timidamente, uma tirada a tender para o humor, comentando que o pavimento estava em mau estado, mas mais não consegui do que um sorriso amarelo do casal vikings que viajava a meu lado. 
Até me atrevi a imaginar que só não ia parar ao colo da passageira que ocupava o lugar do outro lado do corredor, ou vice-versa, porque ambos levávamos os cintos apertados. 
Aliás, não teria havido incómodo porque ficávamos em família.
A passarola abanava mesmo e os passageiros acompanhavam o compasso, ainda que de modo desajeitado. 
Enquanto isso, os gritos, o som desagradável de vómitos e o desmaio de uma passageira completavam a cena que, convenhamos, era mesmo assustadora. 
Não obstante viajar, como sempre, na coxia, apercebi-me, através da janela, que o avião desenhou três círculos sobre Copenhaga, até que, finalmente, qual pára-quedas tranquilizador, a voz do comandante informou que, por dificuldades atmosféricas, seria necessário optar por uma aproximação a Malmo. 
Em menos de cinco minutos, digo eu, depois de uma eternidade, aterrámos suavemente na Suécia que, como sabem fica mesmo ali ao lado, sob uma rajada de aplausos, que premiou um desempenho notável, mesmo  na minha perspectiva de leigo, de um Senhor Piloto, a qual apenas foi interrompida pelo pedido de intervenção de um médico, no caso de haver algum entre os passageiros, o que felizmente aconteceu. 
Pouco depois chegaram os paramédicos e apenas foi necessário esperar que a paciente, que se encontrava deitada no chão do corredor, recuperasse minimamente, para que todos abandonassem a aeronave.
Já na gare enquanto se aguardava pelos autocarros que, eventualmente, haveriam de conduzir para Kastrup, no caso da ponte sobre Øresund ser reaberta ao transito, os passageiros que estivessem interessados, as expressões de alívio estampadas nos rostos de todos eram por demais evidentes. 
No que me dizia respeito não tenho a certeza, porque não me vi ao espelho, mas disseram-me que já me tinham visto com melhor cara. 
Mais tarde, no hotel em que decidimos ficar, indaguei do comandante se “aquilo” tinha sido perigoso e ele respondeu-me com um amável sorriso: Trabalhoso...trabalhoso... 
Pudera! Com rajadas ciclónicas se 160 kms pela retaguarda, dá para fazer uma ideia...

17/11/15

Dois envelopes

Hoje tinha na caixa do correio dois envelopes plastificados, com origem no grupo do grande merceeiro, cada um dos quais, no meio de vária papelada, contendo informação em catadupa, incluía um cartão de crédito daqueles que servem para tudo, até, vejam bem o despautério, para comprar o que é necessário...
Já foram ambos para a reciclagem, porque se tratava de tipos diferenciados de lixo.

09/11/15

Colunistas e linguarudos

Os colunistas e linguarudos que por aí campeiam à babujem do soldo dos media da direita, estão a ficar cada vez mais abestalhados com a rábula que lhes encomendaram em volta de quem está apaixonado por quem, na coligação de esquerda. 
Muitos deles são burros de pai e mãe e não distinguem se inventaram um caso de síndrome de Estocolmo ou de síndrome de Lima, nem conseguem perceber a posição de quem fica refém de quem. 
Coitados, o mal deles deve ser mesmo o TPO-C, pelo que apenas lhes resta especular em torno da telenovela programada à medida, pour épater le bourgeois.

29/09/15

No confessionário:

Senhor padre, meu grande pecado é o orgulho.
O vigário, que além de bonacheirão era progressista, curioso perante aquele testemunho tão eloquente, perguntou:
Minha filha, a menina é rica?
Não, senhor padre.
A menina é bonita e elegante?
Não, senhor padre.A menina tem emprego?
Não senhor padre.
A menina é inteligente e culta?
Não, senhor padre.
Compreendo. Diga-me só mais uma coisa: a menina apoia o Pàf?
- Sim, senhor padre.
Foi então que o padre se levantou, abriu a cortina, saiu do confessionário e mirando vaidoso os seus sapatos de fivela –estilo sapato de monsenhor protonotário apostólico–, deixou cair a benevolência magnânima e foi sincero e objectivo:
-Então, minha filha, a menina não é orgulhosa. A menina é estúpida!

( Não houve lugar a penitência)

18/09/15

Da vida na aldeia

É sabido que entre os seres vivos, o Cisne é o mais famoso animal monogâmico e, não obstante ou talvez por isso, consta que vive feliz, a prova é que canta antes de morrer.
Ao contrário de uma residente aqui perto, que deveria ter “morrido” antes de cantar, metaforicamente falando.
Imaginem só a versão muito pessoal das cantigas românticas de um qualquer Tony, que lhe saem pela janela ao longo da manhã, e que mais tarde são prolongadas em harmoniosa concorrência pelas divertidas manifestações ruidosas, que se soltam das narículas de um seu vizinho e dão vivacidade à monotonia da hora da sesta.
Há lá coisa melhor do que passar uns largos dias na "terra", agora que o Verão está em pleno apogeu.

04/09/15

Fait divers.

Discretear a propósito, ignorando o propósito: 
A liberdade de uma política exibir a nudez da sua gravidez na capa de uma revista, é uma opção estética e um direito legítimo, que não justificam o alarido que por aí vai. 
Especular adrede, divertindo (-me) com a encenação: 
O A.J. Jardim arriscou antes. Só que estava prenhe de poncha --daí a proeminência abdominal--  e sabia que ia dar à luz pela enésima vez, com sucesso garantido.
E já que chegámos à Madeira, polémico seria se fosse o José Manuel Coelho, a pousar nu, de megafone na mão.

29/08/15

Back in town


 Here we are again, but only for some time

29/07/15

Do crocodilo ao tubarão

Faz tempo que tenho um fraquinho pelo aeroporto de Lisboa -compreende-se.
Gosto daquele frenesim do vai e vem, muito mais do que da rotina do ir e voltar.
Um destes dias, estava eu vidrado nas "chegadas" quando, subitamente, me cruzei com um velho conhecido da vida activa, facho até dizer chega, que, por acaso, havia encontrado, há muito, durante um passeio rotineiro a caminho da marginal, nas imediações da Feira de Carcavelos. 
Após o cumprimento de circunstância, não dispensei a pergunta que se impunha:
--Então pá! Sempre conseguiste encontrar o crocodilo que te tinha fugido da "Lacoste"?
--Qual quê! Eu não te disse logo que neste país já nada é como 'no' antigamente, tudo mudou e para pior, até a contrafacção se transformou numa autêntica fraude.
--Estou a ver. É por isso que passaste a usar camisas da "Paul & Shark" *. Reconheço que tens bom gosto, é outra coisa. E estas são genuínas? Vê lá se o tubarão se escapa ou se a ASAE te fila o dente.
--Claro, só podem! Compro-as todas nos Free shops e até hoje ainda não se afastou nenhum e olha que as levo para a praia da Comporta.
--Ah bom! Tu é que a sabes toda. E aproveitas para continuar a seguir de perto o teu líder da agremiação do Caldas, depois de que ele passou da economia paralela das feiras para a diplomacia económica das viagens de estado.
--Nem mais! Que isto de subir na vida não escolhe idades.
--Percebo. Sempre foste um empreendedor com grande sentido de orientação. Nunca irás vestir a camisa dos pobres, nem sequer discutir a toilette dos nus.
--Claro! O que é  preciso é estar atento. Adeus que tenho mais que fazer.
--Adeus. Porta(s)-te bem (se fores capaz...)!

* Publicidade no bth.  Desculpem, devem ser efeitos da canícula. A publicidade e o texto...

04/06/15

"Pertanto"...

Pertanto querem fazer do Jasus o bode respiratório, mas para ele foram pinners, teve a oportunidade da transferência, feze-a e vai passar a ter pinos efeverscentes verdes. 
Jorge Fernando Pinheiro de Jesus e Teodoro Obiang Nguema Mbasogo serão os dois novos "marcos" imbatíveis na defesa da "língua portuguesa" ao serviço do leão. Um dá a táctica o outro paga-a. 
Se as coisas correrem mal o mister apóstata até pode converter-se ao islão e assinar como treinador da selecção do Estado Islâmico. 
E agora falando a sério. Para acabar com as especulações sobre a deriva abjuratória de Jesus, aqui deixo uma sugestão desinteressada e subtil (qb): 
Se dependesse de mim, prescrevia-lhe "Lagarctil" e metia-o na jaula com Bruno e o leão!

03/06/15

O sapato

Aqui há tempos dei por falta de um sapato. Intrigado, vasculhei a casa de alto abaixo, debalde, do sapato nem rasto.
Repeti a busca exaustiva, uma e outra vez, até ficar convencido de que o dito tinha dado à sola e, porque não tenho vocação para andar ao pé-coxinho, decidi deitar fora o outro sapato.
Confesso que, durante uns dias, me senti bastante incomodado, com este episódio, mais ou menos, insólito. Mas, como é costume dizer-se quando algo corre mal, podia ter sido pior.
E não é que foi mesmo pior. O sapato que tinha levado descaminho acabou por reaparecer, na companhia de um par mais antigo, bastante amarfanhado, coitado, porque a caixa era pequena para os três.
Moral da história: Perder um sapato é chato, mas nada comparável à chatice de o perder, deitar fora o outro e voltar a encontrar o primeiro.

01/06/15

Sous les pavés...



Mais um Maio que já lá vai e de novo ficou a mesma sensação de vazio que há muito me preenche. 
A mim, que não bebi muito da colheita de 68, não obstante reconhecer que ainda paira por aqui um pouco do seu sprit de vin, rouge, bien sûr...
Logo, não fui propriamente um soixante-huitard, já que encontrei a praia, noutras madrugadas, sob outros chãos, mas sempre me identifiquei com a matriz de muitas das transformações sociais e culturais que marcaram esse tempo da utopia.
Confesso mesmo que tenho a memória nos anos sessenta, o coração e o bigode nos setenta e a pêra nos oitenta. 
A partir daqui nada mais retenho de substancial para além da nostalgia.

23/05/15

Um nome "esquisito"




A missão portuguesa que integra a Coligação Internacional de combate ao Estado Islâmico,  reforça o contingente de Espanha no Iraque e vai actuar sob as ordens de um militar espanhol, é identificada por “Secção Viriato” .
Não faço a mínima ideia de quem foi o padrinho deste infeliz baptismo, nem das razões que estiveram subjacentes à escolha do nome, o qual, aliás, constitui um autêntico insulto para os que pretendem defender a paz e a liberdade.
Teria sido importante que alguém tivesse esclarecido que "os viriatos", foram os membros do tércio da legião, enviados a Espanha pelo ditador de Sta. Comba, para alinharem do lado do Caudilho durante a guerra civil de Espanha.

12/05/15

(Des)acordo ortográfico



Faz tempo que se escrevia com “i”, depois passou a ser com “e”, mas, como sempre, antes e agora, mãe há só uma.
Sendo que aos “filhos da mãi” sobrevieram os “filhos da mãe”, tantos que, como sói dizer-se, são mais do que as mães.
Alguns deles, não obstante a posição destacada que ocupam, cometeriam um autêntico «palavricídio», se escrevessem como falam, tal é a escassez de domínio da língua, a dicção deplorável e a módica dimensão intelectual que evidenciam.
Vem este preâmbulo, a propósito do (Des)Acordo Ortográfico e das polémicas que está a causar.

Atrevo-me pois, a alinhavar umas ideias sobre o assunto, sem outro intuito para além de marcar a minha posição de simples escrevinhador.
Confesso algum desconforto em adoptar as modificações introduzidas e experimento mesmo uma certa relutância em interiorizar, por exemplo, a queda das consoantes mudas.
Todavia, não consigo espicaçar-me a repudiar liminarmente a nova realidade que se perfila diante de nós e, de facto, por paradoxal que pareça, mantenho alguma prudência na avaliação da mesma, já que a análise, essa, delego-a em quem sabe.
Entre a tolerância pragmática de José Saramago, para quem era necessário, sobretudo, ter cuidado com as palavras e a mudança de sentido que as desvirtua ou o -legítimo- medo de existir (do Acordo) de que nos falou, com azedume, o outro José, o Gil, inclino-me para o primeiro, sem quaisquer reverências.
Nada de definitivo porém. Vou continuar a escrever como sempre fiz, na expectativa de que um qualquer tropismo me faça romper com o hábito ou , na mais provável das hipóteses, deixar ao tempo o que, no quadro actual de referências, só o tempo pode decidir, tendo plena consciência de que, pelo andamento que estas coisas costumam ter, fica por saber se eu próprio ainda irei a tempo de mudar...

05/05/15

Os suspensórios

Aqui há atrasado (como eu gosto desta expressão), por uma questão de comodidade, decidi comprar uns suspensórios, feitos na UE (?), e paguei trinta euros. Hoje comprei outros, praticamente iguais, "made in China", que custaram dois euros e meio.Lamento não poder recuar uns tempos porque, garanto-vos, tinha saído da outra loja com as calças na mão.

24/04/15

O susto e o beijo



"Ainda ontem tínhamos vinte anos"

Lembras-te? Olhei para ti, estavas afogueada.
Pudera! Tínhamos galgado num ímpeto a enorme escadaria até ao Largo da Misericórdia, impelidos pela revolta que nos sacudiu ao sentir nos ombros a manápula grosseira de um labroste da polícia política, de catadura patibular e sorriso sardónico, que nos interpelou com olhar torvo e voz cava de meter medo ao susto: Fora daqui antes que seja pior!
Havíamos estado na Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal, onde preparávamos, conjuntamente com um grupo de amigos, uma acção de distribuição de propaganda da CDE, contra o regime do opróbrio.
Alguns instantes mais tarde, já na Trindade -só podia ser- entre uma imperial e meia dúzia de tremoços, lamentávamos ter deixado para trás a sacola com os folhetos, quando, primeiro um olhar cúmplice e depois uma voz amiga, nos segredou onde a podíamos recuperar.
E lá seguimos, noite adentro, até ao Príncipe Real, para cumprir a tarefa de deixar "o recado" por debaixo das portas, nos parapeitos das janelas e até numa varanda mais à mão, quando te peguei ao colo e logo estremeci ao ouvir o teu alerta: Vem aí um "creme nívea"! *
De imediato deslizaste ao longo do meu corpo até pousares de mansinho no chão, ao mesmo tempo que eu te envolvia e,  com um pontapé de supetão, atirava o saco para debaixo de um carro.
Permanecemos assim enlaçados. Mal por mal, antes ser acusados de atentado aos costumes...
Mas a ronda policial passou, lentamente, com indiferença bovina e nós aproveitámos para prolongar o abraço, não fosse o perigo voltar -quer dizer...
Depois, foi inevitável, libertou-se, longo e sôfrego, o beijo há muito desejado.
Tornei a olhar para ti, estavas  afogueada...

Apostila: Esvaziámos a sacola.  Em segredo, Abril anunciava-se.

* Modo por que eram conhecidos os carros da polícia.

In: Crónicas dos dias cinzentos
La Pipe - 2004
bth - Abril 2012

20/04/15

A assinatura recusada

De vez em quando, gosto muito de vir passar uma semana na aldeia. Sinto uma espécie de apelo telúrico, não obstante ser lisboeta de terceira geração. 
Hoje fui à mercearia do largo fazer umas mercas e logo dois velhos conhecidos me interpelaram, separadamente, à entrada, pedindo-me uma assinatura para poderem, eles próprios, apresentarem-se na candidatura a Belém. 
Confesso que hesitei e só não acedi para não privilegiar qualquer um deles e, também, porque, com o devido respeito por ambos, entendo que já basta de campónios no Palácio.

09/04/15

Dúvida aguda com tendência para crónica

No meio de tanta declaração, de tanta inquirição, de tanta audição -a pedido e não só- e de tanta exaustão, será que alguém consegue saber quando é que as verdades a que temos direito e que, graças ao empenho e competência de alguns, se afiguram cada vez mais “verdadeiras”, vão ser capazes de romper a cortina de fumo, que emerge dos rabos de palha a arder, dos suspeitos do costume, selectivamente alimentada pelos abanadores de plantão, voluntários e sapadores, que simulam acudir aos fogos postos, mas habilmente controlados, a aguardar o apagão?