.

Sucediam-se as conjecturas para encontrar a maneira mais segura de conseguir fazer passar os Álbuns de Luís Cília, de Paris para Lisboa.
Tinha-me apercebido de que os tempos começavam a ficar menos plúmbeos e os anos de chumbo derretiam-se lenta mas inexoravelmente.
O regime agonizava e Abril estava à distância de poucas folhas do calendário. Não obstante, era perfeita a noção de que a malha na fronteira continuava estreita e os esbirros de plantão vasculhavam tudo o que lhes levantasse suspeitas.
Para além da apreensão e perda dos discos, havia que considerar o risco acrescido de retaliações pessoais.
De súbito uma "campainha", na minha mente produziu-se um clique e peguei no telefone. Qual "Ovo de Colombo" a solução tinha surgido clara.
Na primeira oportunidade, sem causar sobressaltos, apenas alguma ansiedade, aí estavam os quatro álbuns, protegidos por quatro capas de discos de Aznavour e Piaf, que pouco mais mereceram do que a indiferença dos “fiscais” de serviço, certamente inclinados para o pimba da altura e o nacional-cançonetismo.
Por uma vez, o conhecido ditado foi subvertido: «Quem “não” tem capa sempre escapa»
Apostila: Decorrido algum tempo os discos e as capas casaram de novo.
In: Memórias dos dias cinzentos
La pipe - 2004
bth - Abril 2011