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29/04/14

A(s) capa(s)

    .      

Sucediam-se as conjecturas para encontrar a maneira mais segura de conseguir fazer passar os Álbuns de Luís Cília, de Paris para Lisboa. 
Tinha-me apercebido de que os tempos começavam a ficar menos plúmbeos e os anos de chumbo derretiam-se lenta mas inexoravelmente.
O regime agonizava e Abril estava à distância de poucas folhas do calendário. Não obstante, era perfeita a noção de que a malha na fronteira continuava estreita e os esbirros de plantão vasculhavam tudo o que lhes levantasse suspeitas.
Para além da apreensão e perda dos discos, havia que considerar o risco acrescido de retaliações pessoais.
De súbito uma "campainha", na minha mente produziu-se um clique e peguei no telefone. Qual "Ovo de Colombo" a solução tinha surgido clara.
Na primeira oportunidade, sem causar sobressaltos, apenas alguma ansiedade, aí estavam os quatro álbuns, protegidos por quatro capas de discos de Aznavour e Piaf, que pouco mais mereceram do que a indiferença dos “fiscais” de serviço, certamente  inclinados para o pimba da altura e o nacional-cançonetismo.
Por uma vez, o conhecido ditado foi subvertido: «Quem “não” tem capa sempre escapa»

Apostila: Decorrido algum tempo os discos e as capas casaram de novo.

In: Memórias dos dias cinzentos
La pipe - 2004
bth - Abril 2011


26/04/12

O susto e o beijo

"Hier encore nous avions vingt ans."

Lembras-te? Olhei para ti, estavas afogueada.
Pudera! Tinhamos galgado num ímpeto a enorme escadaria até ao Largo da Misericórdia, impelidos pela revolta que nos sacudiu ao sentir nos ombros a manápula grosseira de um labroste da polícia política, de catadura patibular e sorriso sardónico, que nos interpelou com olhar torvo e voz cava de meter medo ao susto: Fora daqui antes que seja pior!
Haviamos estado na Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal, onde preparávamos, conjuntamente com um grupo de amigos, uma acção de distribuição de propaganda da CDE, contra o regime do opróbrio.
Alguns instantes mais tarde, já na Trindade -só podia ser- entre uma imperial e meia dúzia de tremoços, lamentávamos ter deixado para trás a sacola com os folhetos, quando, primeiro um olhar cúmplice e depois uma voz amiga nos segredou onde a podíamos recuperar.
E lá seguimos, noite adentro, até ao Príncipe Real, para cumprir a tarefa de deixar "o recado" por debaixo das portas, nos parapeitos das janelas e até numa varanda mais à mão, quando te peguei ao colo e logo estremeci ao ouvir o teu alerta: Vem aí um "creme nívea"!
De imediato deslizaste ao longo do meu corpo até pousares de mansinho no chão, ao mesmo tempo que eu te envolvia e,  com um pontapé de supetão, atirava o saco para debaixo de um carro.
Permanecemos assim enlaçados, mal por mal, antes ser acusados de "atentado" aos costumes...
Mas a ronda policial passou, lentamente, com indiferença bovina e nós aproveitámos para prolongar o abraço, não fosse o perigo voltar -quer dizer...
Depois, foi inevitável, libertou-se, longo e sôfrego, o beijo há muito desejado.
Tornei a olhar para ti, estavas  afogueada...

Apostila: Esvaziámos a sacola. Abril anunciava-se.

01/09/10

O Poeta e as minhas memórias

           
                 José Gomes Ferreira - Mário Viegas: Chove

Apenas um pretexto, no ano em que se cumpre o 25º aniversário da morte de José Gomes Ferreira:


Ali, na cave do Café Martinho, "o Café dos conjurados" (como eu costumava chamar-lhe), de bica em punho e sentidos atentos, que, como disse Nicolas Guillen: «la polícia (paso de alfombra y ojo de gato) mira en la sombra», procurávamos exorcizar, continuadamente, os fantasmas da caserna adivinhada, então já colados ao corpo, enquanto destilávamos em surdina a raiva acumulada contra a ditadura.
Muitas foram as vezes que “derrubámos” o regime do opróbrio e da ignomínia, que à força de nos despir da dignidade, nos iria forçar a vestir a farda da vergonha e tantas foram as noites de inquietação e cólera, em que nos imaginávamos a incendiar o tempo e o espaço, com gestos e palavras repetidos, uma e outra vez, numa instante catarse colectiva para afastar os demónios da guerra que nos espreitavam e tanto temíamos.
De quando em vez, aconteciam também momentos de estranha apatia, a que aderíamos mais por tropismo do que por qualquer outra razão inteligível e que reflectiam o desalento provocado pelos dias de chumbo do "inverno" do nosso descontentamento.
Numa mesa contígua, a habitual, José Gomes Ferreira e Augusto Abelaira trocavam olhares cúmplices por entre o fumo do cachimbo e sorriam daquele inconformismo jovem, como se ambos pressentissem que ali, naquela tertúlia, também estava a clara madrugada que se prometia.
Tempos mais tarde, lentamente, aconteceram as incorporações e as mobilizações que levaram alguns a partir para as terras do longe, nas barcas que levavam a guerra e deixavam a mágoa, enquanto os seus lugares foram ficando vazios e o Café Martinho, foi sacrificado à gula de um banco que lhe usurpou o espaço (...)

In: Memórias dos dias cinzentos (excerto) - La Pipe - 2004