.............René Magritte: La trahison des images *
Faz cinco anos desde que decidi iniciar-me na aventura bloguística e criei o meu primeiro blogue: La pipe.
E porquê La pipe?!
Tinha decorrido algum tempo, pouco, após um sujeito de aparência delicada me ter abordado à saída do comboio na gare do Aeroporto de Kastrup e se ter disponibilizado para ajudar a retirar a bagagem e colocá-la no carrinho, que a levaria ao check-in.
Distraído como é hábito estar, não hesitei minimamente em aceitar a gentileza e dois minutos depois tinha sido roubado, i.é, a minha simples maleta de mão já tinha levantado voo nas asas do desejo, de ganhar o dia, de um "nórdico moreno e de bigode", que mais não era do que um qualquer imigrante sazonal em Copenhaga, “especializado” em aliviar viajantes desprevenidos.
Para além de uma reprimenda monumental de âmbito familiar. Aconteceu que, entre outras coisas sem importância, fui espoliado de dois dos melhores cachimbos da minha estimada colecção, que havia previamente seleccionado para aquele dia, além de parte da panóplia de acessórios essenciais ao cumprimento do ritual quotidiano de fruir umas boas cachimbadas, e, também, dum livro curiosíssimo sobre a maneira como os estrangeiros vêem os Danes, que me preparava para ler na viagem.
Foi tão grande a decepção que, logo ali, resolvi tomar duas decisões: Uma de efeito imediato, que nunca mais iria usar maleta de mão e outra, projectada num futuro próximo, que iria deixar de fumar.
Pouco tempo depois, mandei os fumos às ortigas e reuni os outros cachimbos em várias taças decorativas, que passaram a alternar espaços com os livros que povoam as estantes cá de casa e em relação aos quais, "apesar de alguns também já terem voado", não há hipótese alguma de acabar com o vício.
Foi assim que me lembrei de Magritte e da sua reabilitação dos objectos, que inspirou o título daquele blogue pioneiro.
A partir de então, os meus objectos de culto passaram a figurar, lado a lado, sob formas diferentes: uns estáticos, os Cachimbos, ainda corporizados em raiz de nogueira e cerejeira, mas que há muito perderam o dom da volúpia; os outros, os Livros, prenhes de movimento e vertigem, feitos de lombadas e páginas mil vezes manuseadas.
Os cachimbos representam somente aquilo que já foram, os livros constituem a presença viva de sempre e o La pipe interrompeu a sua publicação e figura agora na memória do(s) "bons tempos hein?!".
* Imagem do título